segunda-feira, 26 de maio de 2008

A Igreja e o Estado - Michael Bakunin

Diz-se que o acordo e a solidariedade universal dos interesses dos indivíduos e da sociedade nunca poderá realizar-se de fato, porque seus interesses, sendo contraditórios, não estão em condições de contrabalançar-se de si mesmo ou de chegar a uma interpretação qualquer. A tal objeção eu responderia que, se, até hoje, os interesses nunca e em lugar algum estiveram de mútuo acordo, foi por causa do Estado, que sacrificou os interesses da maioria em proveito de uma minoria privilegiada. Eis por que esta famosa incompatibilidade e esta luta de interesses pessoais com os da sociedade nada mais é do que um logro e uma mentira política, nascido da mentira teológica, que criou a doutrina do pecado original para desonrar o homem e destruir nele a consciência de seu próprio valor.

Esta mesma falsa idéia de antagonismo de interesses foi gerada também pelos sonhos da metafísica que, como se sabe, é parente próxima da teologia. Desconhecendo a sociabilidade da natureza humana, a metafísica olhava a sociedade como um aglomerado mecânico e puramente artificial de indivíduos, associados de repente, em nome um tratado qualquer formal ou secreto, concluído livremente ou por influência de uma força superior. Antes de unirem-se em sociedade, estes indivíduo dotados de uma espécie de alma imortal gozavam de inteira liberdade.

Vê-se que nos sistemas metafísicos e teológicos tudo se liga e se explica por si mesmos. Eis por que os defensores lógicos destes sistemas podem e até devem, com a consciência tranqüila, continuar a explorar as massas populares por meio da Igreja e do Estado. Enchendo seus bolsos e saciando todos seus sujos desejos, podem ao mesmo tempo consolar-se com o pensamento de que sofrem pela glória de deus, pela vitória da civilização e pela felicidade eterna do proletariado.

Nós, contudo, não acreditando em deus nem na imortalidade da alma, nem na própria liberdade da vontade, afirmamos que a liberdade deve ser compreendida, na sua acepção mais completa e mais ampla, como a finalidade do progresso histórico da humanidade. Por um estranho, embora lógico, contraste, nosso adversários idealistas da teologia e da metafísica tomam o,princípio da liberdade como fundamento e base de suas teorias, para concluir candidamente que a escravidão dos homens é indispensável. Nós outros, materialistas em teoria, tendemos na prática a criar e a tornar durável um idealismo racional e nobre. Nossos inimigos,idealistas divinos e transcendentais,caem no materialismo prático, sanguinário e vil, em nome da própria lógica, segundo a qual cada desenvolvimento é a negação do princípio fundamental.
Estamos convencidos de que toda a riqueza do desenvolvimento intelectual, moral e material do homem, assim como sua aparente independência, é o produto da vida em sociedade.


Este texto de Bakunin tão atual,foi publicado em 1871 no livro a Comuna de Paris e a Noção de Estado.
Num próximo post,concluirei este texto.

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